Ela, ao seu lado, via na televisão um programa que parecia feito propositadamente para não se pensar. Recostada na cabeceira da cama, parecia hipnotizada pelas cores da telinha.
De qualquer forma, apesar das diferenças, existia carinho entre os dois. Estar junto na mesma cama, cada um na sua diversão, em baixo do mesmo cobertor, era uma das formas dos dois trocarem carinhos.
A televisão atrapalhava a concentração na leitura. Então, quando percebeu que a leitura não rendia, fechou os olhos e, também recostado na cabeceira da cama, começou a pensar.
Seu passado não foi tão diferente da maioria dos jovens: cheio de alegria de viver e ideais correu riscos que, talvez, atualmente não correria. O ápice dos riscos que correu deu-se no ano de 1969, durante uma passeata de protesto contra a repressão política exercida pela ditadura militar. Quando a tropa de choque chegou todos correram. Ele não. Ao contrário, avançou em direção aos militares, trazendo na mão pedras arrancadas da calçada. Atirou a primeira e nem mesmo viu se o alvo tinha sido atingido. Atirou a segunda pedra e, nesse momento, correu em sentido contrário ao da tropa que se aproximava.
O ódio que passava por sua cabeça o cegava. Mesmo jovem, nos seus dezenove anos, tinha sensibilidade às contradições sociais. Não suportava assistir pessoas mendigando enquanto outras viviam nababescamente. Ele não tinha certeza se o enfrentamento violento contra a polícia da ditadura era a solução do problema. Mas era o que lhe restava de espaço de luta. Por isso estava lá, jogando pedras, agredindo pessoas que talvez estivessem muito próximas daqueles que defendia das injustiças sociais.
Ao correr em direção contrária a da tropa não percebeu que tinha caído numa cilada. Os soldados que vinham pela frente, em sua direção, estavam apenas servindo de "isca" para que os outros fechassem o cerco por trás. Não teve tempo para correr muito. Assim que deu a volta para tomar a direção contrária a da tropa sentiu um forte golpe de cassetete na cabeça, e tonto, perdeu o equilíbrio e foi ao chão. Antes mesmo de tocar com seu corpo no chão começou a ser chutado por vários soldados absolutamente irados e fora de controle.
Com um profundo corte no supercílio e com o corpo completamente dolorido chegou ao quartel. Assim que chegou passou por um interrogatório em que procurou mostrar toda a arrogância própria da juventude:
- Pode começar a falar que nós já sabemos de tudo - disse o militar.
- Se vocês já sabem de tudo o que vocês querem mais? Detalhes? - respondeu acintosamente.
Dito isso ganhou mais uma sessão de pancadaria. Socos na cabeça, tapas no rosto, para desmoralizar, e um forte soco no estômago que o fez desmaiar. Quando voltou a si estava na cama de uma cela. Olhou em volta e viu que tinha companhia de uma outra pessoa.
- Seja bem vindo à nau dos "talvez, quem sabe?". Agora você também faz parte da "categoria dos malditos". - disse o outro prisioneiro.
Ele se levantou da cama e se sentou no chão, encostado na parede, e se pôs a chorar convulsivamente. No primeiro dia de cadeia chorou durante todo o dia. Não era choro de arrependimento. Estava se sentindo injustiçado. Por que ele? Ele não era um bandido. Ao contrário, sentia-se um libertador: como "Che" Guevara, em Cuba; Simon Bolívar, no extremo norte da América do Sul; João Cândido, na Marinha brasileira ou Cristo, para a humanidade. Por isso chorou durante todo esse primeiro dia de prisão: de raiva diante da constatação de sua mais completa impotência diante da situação.
Permaneceu incomunicável naquela cela durante cerca de trinta dias. Um soldado, plantado na entrada da cela, impedia que conversasse com o colega, também privado de sua liberdade. Não podia ler livros, muito menos jornais. Só uma coisa lhe restava: travar um profundo contato com ele mesmo. Descobriu que estava irremediavelmente só. O colega de cela, assim como ele, era uma figura silenciosa e morta. O soldado de guarda só se dirigia a eles aos gritos, quando não se continham e se comunicavam com breves palavras. Até a comida, que quase sempre vinha com uns bichinhos dentro, parecendo vermes, era entregue em silêncio, sem que a porta da cela fosse aberta, por uma fresta.
Só lhe restava então lutar contra a solidão, procurando, de forma radical, a companhia de seus pensamentos e, desta forma, fazer companhia a si mesmo. Apesar da violência que o cercava, descobriu nele mesmo um grande amigo e, mais do que isso, descobriu a liberdade. Bastava que fechasse os olhos e guiasse seus pensamentos que não haveria paredes de uma cela que o prendesse.
Uma de suas distrações era relembrar os livros que tinha lido. O que mais gostava de se lembrar era Fernão Capelo Gaivota. Imaginava-se Fernão Capelo fazendo seus "loopings", "parafusos", provocando a leveza de um "stall" para, na queda livre, buscar novamente a firmeza da sustentação do ar. Descobriu-se livre para voar. Ninguém poderia impedi-lo. Só se o matassem.
Se a privação da liberdade era uma violência contra seus maiores desejos, no caso dele surtiu efeito contrário: descobriu a liberdade. Descobriu que a liberdade não era uma doação ou um consentimento, mas uma conquista dentro de si mesmo. Com isso pode se fazer feliz diante da adversidade. Já na cadeia percebeu que os soldados se incomodavam com sua felicidade.
- Tá rindo de quê? - gritava o soldado.
- Eu não estou rindo, estou feliz. - respondeu ele.
- Cala a boca! Você parece uma hiena: um animal enjaulado e ainda ri. - voltou a vociferar o soldado.
Argumentar seria inútil. Mesmo porque não podia falar. Sempre que era ofendido pelo soldado sentava-se no chão, recostado na parede, fechava os olhos e voava. Seu colega de cela apenas andava de um lado para outro, como o tal animal enjaulado, prisioneiro de si mesmo.
Não era essa a intenção da repressão, mas a prisão serviu de grande ensinamento de vida. Não no sentido de moldá-lo e torná-lo conforme, mas no sentido contrário de descobrir sua própria liberdade. Essa aprendizagem ele levou para toda a sua vida. Poderia viajar por todo o universo sem sair do lugar onde estivesse. Poderia estar na Lua sem que fosse preciso estar lá; poderia passear por Marte; poderia viajar pelas mais distantes galáxias ou tornar qualquer fantasia sua realidade particular. Aprendeu a ser livre e aprendeu a voar.
Da cama podiam ver o céu pela janela. Ela comentou que o dia estava feio. Uma chuva fina caía no meio da tarde e as nuvens escuras cobriam o céu. Ele abriu os olhos e respondeu que para ele não existiam dias feios ou bonitos; todos os dias eram sempre lindos e o céu estava sempre azul.
- Mas de onde estamos não podemos ver o céu azul, só as nuvens escuras.
- Então voa - respondeu ele.
Rio de Janeiro, maio de 2003